Recuperado testemunho do horror nazi em Auschwitz

Ajustar Comente Impressão

Uma carta escrita por um judeu grego prisioneiro em Auschwitz-Birkenau revela detalhes de um dos mais tristes episódios da história da Humanidade.

Todos os dias, Marcel Nadjari era recrutado junto com outros prisioneiros para o "Sonderkommando", grupo comandado pelos nazistas para a execução de tarefas que os alemães não se dispunham a realizar, como enterrar os corpos dos executados e limpar as câmaras de gás.

Na carta que Nadjari achava ser de despedida, conta que o trabalho dos presos era entregar os cadáveres aos fornos crematórios onde "um ser humano acaba em cerca de 640 gramas de cinza".

O Sonderkommando era um grupo de trabalho em Auschwitz composto por prisioneiros judeus do campo de extermínio.

"Todos sofremos coisas aqui que a mente humana não consegue imaginar", escreveu Nadjari.

"Debaixo de um jardim, há um porão com dois recintos infinitamente grandes: um deles é usado para tirar as roupas". "As pessoas entram nuas e, quando o espaço está cheio com cerca de três mil pessoas, ele é fechado, e todos são asfixiados com gás".

Em 1944, o judeu de origem grega decidiu escrever uma carta, que guardou dentro de uma termos, envolta numa bolsa de couro e enterrada perto do Crematório III, antes do campo ter sido libertado no início de 1945.

"Depois de meia hora, tínhamos que abrir as portas e o nosso trabalho começava". Neste mês, eles foram publicados pela primeira vez em alemão, pelo Instituto de História Contemporânea (IfZ), com sede em Munique. É um dos nove documentos encontrados enterrados em Auschwitz, explicou o historiador russo Pavel Polian ao DW.

Cerca de cem dos quase 2 mil prisioneiros de Auschwitz encarregados de se livrar dos milhares de cadáveres sobreviveram aos horrores do campo de extermínio. O grego Nadjari foi um deles, o único dos cinco autores de cartas que conseguiu sair vivo de Auschwitz. Ao contrário das mensagens dos outros prisioneiros, apenas entre 10% e 15% do texto de Nadjari estavam legíveis. Depois, foram encaminhados ao Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, instalado na Polônia.

Em 2013, o historiador russo, especialista em tecnologia da informação, trabalhou durante um ano analisando as letras com tinta borrada usando um sistema de imagem multispectral, que tornaram os contornos das letras visíveis. Nascido em 1917, Nadjari era um comerciante nascido em Salonica, e deportado para Auschwitz em abril de 1944. Em 1951, emigrou com a família para os Estados Unidos, onde acabou por trabalhar como alfaiate. Nadjari morreu em Nova York em 1971, aos 54 anos de idade.

"Se lerem aquilo que fizemos, vão questionar como foi possível enterrar os nossos amigos judeus", escreve ainda Madjar. "Foi isso o que eu também disse no início, e pensei várias vezes".

Apesar de Nadjari, no período em que morou na Grécia, ter escrito suas memórias, parece que ele nunca contou a ninguém sobre o manuscrito que enterrara em Auschwitz.

"Não estou triste por morrer", escreve Nadjari, "mas fico triste por não poder me vingar como eu gostaria". Dos cinco prisioneiros que deixaram cartas, foi o único que falou abertamente sobre vingança, afirma Polian.

Comentários